10 / Fev2015

SAIU NA REDE: A ENTREVISTA DE CARINE ROITFELD PARA O STYLE.COM

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Nicole Pheps, do Style.com, entrevistou a maravilhosa editora de moda Carine Roitfeld sobre a nova edição de seu CR Fashion Book. O resultado é brilhante, cheio de presença de espírito! Leiam tudo!

A sexta edição da CR Fashion Book ainda não veio à luz. Carine Roitfeld passou por três cirurgias na coluna entre os últimos desfiles e a chegada da revista às bancas, agendada para daqui a poucos dias. Ela fez o styling de alguns ensaios da revista/ livro de uma cadeira de rodas. “Tom Pecheux me empurrava, então foi tudo bem,” disse ela, acomodada no Shangri-La Hotel, rindo, no seu corset plástico. Caso você tenha visto Roitfeld em algum dos desfiles couture e pensado uma outra coisa, o cinturão que ela usa não é decorativo; se ela tiver sorte, poderá suspender seu uso a tempo dos desfiles da semana de março, quando planeja celebrar a nova edição com uma festa fantástica. “Não combina com um vestido de festa,” pontuou. Roitfeld deu ao Style.com uma ideia sobre as diversas histórias que compõem o sexto CR; além disso, abriu seu coração sobre coisas de todo o tipo, como a Paris de após os atentados à revista Charlie Hebdo, o novo cara da Gucci, um membro específico do clã Kardashian-Jenner retratado em sua revista. Dica: não é Kendall.

Carine Roitfeld: Então, veja só meu corset…

Nicole Phelps: Sim, achei o cinto fabuloso à distância, durante a apresentação da Lanvin de Pré-Outono.

A princípio, não é tão mau, é meio Alaïa, mas a parte de trás é toda… é um cinto customizado pelo hospital. É do hospital.

Então, você se recuperou?

Estou muito melhor. Sofri um acidente um ano atrás em NY. Caí e quebrei alguns ossos, e, você sabe, porque estou sempre correndo e nem sempre faço o que preciso fazer. E, finalmente, passei por essa operação, e, após tão longo procedimento, veio uma segunda operação, e, depois, veio uma terceira. Foi um processo demorado, portanto. As costas foram muito remendadas… Quando se tem de parar tudo por dois meses, fica-se tão mais ansioso por voltar. Por esse lado, esta foi, sim, uma coisa boa. Mais energia, mais felicidade canalizadas para o trabalho, com novas ideias. [Com sorte] esta será uma edição plena de reflexão sobre o que andei passando. Algo que você verá de uma forma diferente, eu diria.

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Diferente de que forma?

Após o hospital, eu pensava, Sobre o que vai ser minha edição? Já estava atrasada. E continuei pensando. Gosto de Serge Gainsbourg, o cantor francês, e ele fez uma canção linda sobre a Anjelica Huston que eu adoro, chamada Jolie Laide. Acho que os americanos a conhecem. Significa “beleza feia,” porém, acredito que jolie laide soe melhor. É uma verdade da vida, e da indústria da moda, pois a ideia de beleza mudou. A edição inteira será em torno da ideia de jolie laide — não apenas quanto à beleza, mas também na ótica da moda, imagens, algo que é ainda mais interessante.

Acho que é um sinal bom para mulheres, pois não somos, todas nós, perfeitas. Fiz um ensaio longo com Michael Avedon; pedi a ele que fizesse minhas belezas feias de um certo modo. Não pude ter Kate Moss porque não podia viajar, não há Kate Moss, mas ela é parte disso. Ela não era a beleza perfeita, mas é, finalmente, uma das maiores top models, entende? É como a Lara Stone. Uma top model agora, mas quando Riccardo [Tisci] me apresentou a ela, ninguém a queria.

Ela não aparecia graciosa ou…?

Ela não era magra o bastante, tinha seios grandes demais, entende. Ela era a garota em quem, na prova, testavam a maquiagem do desfile. Pode imaginar isso? E hoje ela é uma das grandes modelos. É como a Gigi [Hadid]. Uma garota que eu impulsionei muito. Ela tem um rosto muito especial. Algumas pessoas não a acham bonita, outras a acham linda, porém, de todo modo, ela está longe de ter o perfil da beleza ideal. Tudo, na edição, gira em torno disso, sabe? E para fazer mais surpresa, você deve saber que eu sou muito fiel às Kardashians, pois comecei com Kim. Foi uma coisa boa para ela e uma coisa boa para mim — veja onde ela está agora. Então, eu ainda quis outra da família Kardashian na revista. Não é ela, é a irmã mais nova. Qual o seu nome? Kylie. Acho que ela tem um rosto muito interessante. E Kanye também fará parte dessa edição.

Você estava aqui quando o ataque à Charlie Hebdo aconteceu, certo? Você acha que isso teve algum efeito sobre os estilistas radicados aqui?

Foi um choque para os franceses. A América teve as bombas da Boston Marathon; você teve, claro, o evento das Torres Gêmas. Mas, para os franceses, foi um imenso choque, pois não estamos acostumados a estas coisas horríveis nas nossas vidas. E embora os estilistas franceses sejam arrojados ao extremo. Pense em Jean Paul Gaultier, no que ele fez quando fez o show em torno da ideia do judaísmo. Não acho que algo desse tipo teria sido possível hoje, fazer um desfile naqueles moldes. De alguma forma, a liberdade das pessoas vive certo retrocesso. Quanto a mim, pessoalmente, sempre procuro estar atenta ao que deixa as pessoas infelizes; sou muito livre, mas não quero ferir ninguém. Atualmente, há um mundo de regras que as revistas são obrigadas a seguir, tem os anunciantes, de modo que não se vive uma liberdade plena. Para mim, o importante é me sentir livre, mesmo respeitando todas as pessoas com quem trabalho, todos os meus anunciantes, e espero poder manter tudo assim, por um longo tempo, é a minha ideia de luxo. Quanto às revistas francesas, acho que não estão muito distantes, agora, do lugar onde se encontram as japonesas, americanas ou inglesas, concorda? O que acha, vê muita diferença?

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Acho que, se pensarmos na sua era à frente da Vogue Paris, sim, está tudo muito diferente.

Sim, eu recebia tantas cartas. Mas, sabe, algumas vezes, você não sabe como irão lhe atacar. Eles me chamaram racista por pintar Lara Stone de todas as cores, e, numa foto, ela aparecia pintada de preto. E eu fui a primeira a colocar uma garota como Liya Kebede na capa e na edição inteira, as pessoas têm memória muito curta, sabe. E uma vez, coloquei uma garota muito acima do peso, pois sempre apreciei garotas acima do peso numa revista, e recebi, por isso, muitas cartas, me questionando por ter colocado uma “garota tão feia” na minha revista.

Qual sua opinião sobre os desfiles couture?

Acho que o show da Dior foi o melhor de Raf até agora. E amei os sapatos, os sapatos são brilhantes.

Parece que ele tem ganhado confiança. Pareceu-me muito forte.

Fico feliz por ele. Conheci Raf quando ele era muito jovem, cabelo longo de garoto grungy quando ele começou a fazer suas coleções, e ele fotografou muito com Mario Testino na época, isso há tantos anos atrás. E me recordo que eu o visitei e, depois, nunca mais o revi, e que ele era muito tímido, e depois me lembro que alguém estava telefonando para ele depois de um longo tempo, e eu pedi, “Passe o telefone para mim, quero dar os parabéns.” E eu disse, “Raf, aqui é Carine, conhecemo-nos há muito tempo atrás.” E ele disse, “Quero agradecer você por aquele ensaio que fez para mim em Paris há quinze anos atrás.” Ele tem uma memória maravilhosa, e parece ser uma pessoa muito gentil e legal. Adoraria tomar um café com ele dias desses.

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Agora, pensando em fevereiro em diante e nos desfiles, há algo que espera encontrar?

Honestamente, não. É como tudo o mais, você não está procurando um namorado, e, de repente, encontra um. É o mesmo com estilistas. Por exemplo, Riccardo, o desfile dele, fui pela primeira vez em Milão porque meu filho, ele era amigo da Mariacarla [Boscono], e a Mariacarla deu a meu filho um convite para o Riccardo, e, para mim, ele não era ninguém. E eu pensei, “OK, estou de carro e tenho um tempinho,” pensei, “OK, vamos lá.” E fui ver o desfile, e era algo inteiramente novo, inteiramente fresco e extremamente interessante. Assim eu conheci Riccardo. Claro que nutro certa expectativa com relação a J.W Anderson, porque seu trabalho é contagiante; claro que quero muito ver Christopher Kane, que tenho seguido desde o começo, mas nunca se sabe como será.

Gosto de apoiar novos talentos, e gostaria de fazê-lo muito mais. É a nova geração, precisamos dela. É como Riccardo, ele não é mais tão jovem. Sinto-me muito feliz em ver Hedi Slimane. Fui ver seu primeiro desfile, quando ele trabalhava na divisão masculina da YSL, e não havia mais que dez pessoas em volta dele, e ele se tornou esse sucesso tão tremendo, isso me deixa feliz por conhecer essas pessoas há tantos anos. Ontem, por sinal, estive, com Riccardo, nos bastidores da Saint Laurent. Estava entre Riccardo e Hedi, um momento muito especial entre dois amigos. Dois amigos muito talentosos. Posso dizer que tenho a sorte de ter amigos brilhantes. Eles são amigos pessoas também, como deve saber.

E com relação à Gucci, como se sente?

Não conheço o rapaz [o novo diretor criativo Alessandro Michele]. Foi meio como pegar o assistente do assistente. Não vi o desfile masculino, não sei se você estava em Milão.

Só vi as fotos…

O que achou? Já pareceu um bocado diferente…

Sim, foi diferente. Talvez ele estivesse olhando para J.W. Anderson, sua ideia de androginia.  

Jonathan é quase como o cara para quem todos estão olhando agora, ele tem talento, e tem, sobretudo, carisma. E sobre a Gucci, estou mais curiosa com relação ao show feminino, eu diria, que com o masculino.

Imagino o que Tom Ford pensou. Tenho certeza que ele ainda fica de olho no que acontece por lá.

Claro. Mas, sabe, é impossível refazer o jogo, não dá para refazer o filme. E, às vezes, penso que, se Tom Ford estivesse voltando à Gucci e me pedisse para trabalhar com ele, eu nunca diria “sim”, pois está feito. Foi um momento maravilhoso. Tudo era possível. Tudo era livre, e foi muito divertido trabalhar com ele.

Quem são os novos fotógrafos com quem trabalha? Quando decide o que quer fotografar com esses nomes novos, acha que é arriscado? Ou verdadeiramente gosta…

No início, não tive escolha. Outros fotógrafos, não tinha permissão para trabalhar com os antigos, mas, de certo modo, foi uma coisa boa, pois me estimulou a encontrar outros. Um é Michael Avedon — certo, ele é renomado, porém, às vezes, é até mais difícil, quando você tem nome, ser um fotógrafo. Ele fez o portfólio Jolie Laide, e não é fácil fotografar uma estrela e deixá-la menos bonita do que as pessoas esperam que ela seja. Acho que ele fez isso de forma muito inteligente; ele é muito inteligente. E havia muitas garotas novas para se colocar nessa edição. Fotografamos garotas com todo tipo de coisa que as pessoas pudessem não achar bonitas, como, por exemplo, orelhas grandes. Orelhas grandes sempre foram meu complexo, e tenho essas orelhonas apontando do meu cabelo, e Karl [Lagerfeld, que fez esse ensaio] amou essa garota, com o cabelo desse jeito, então, deixamos assim. Eu acho que Karl arrisca muito, quando faz casting e em anúncios. Mesmo quando está fazendo Chanel e Fendi, fotografa outras marcas, o que é raro.

Certo, ele não é orgulhoso em excesso?

Não, fica feliz em fotografar. Ele diz, “Oh, do que se trata? Oh, eu gosto.” Ele é muito profissional e adoro isso. Há uma foto que Karl fez de mimm em meu corset nessa edição. Uma das minhas histórias prediletas dessa edição é sobre o jeans e a camiseta com cara destruída. Atualmente, se você quer comprar uns jeans destruídos, eles custam muito mais caro. Por quê? Acho que é muito interessante como, de repente, uma camiseta podrinha fica mais cara que uma toda novinha. Isso é a tal beleza feia também. É tudo, portanto, conectado nesta edição. Kristen Stewart é parte da revista.

Ela está?

Sim, porque a conheci quando estava com Karl. E ela é muito especial também, e não é uma beleza perfeita. Se ela não conhece a pessoa, torna-se muito insegura. É estranho, mas, às vezes, se é lindo e muito inseguro. Karl tirou uma foto linda dela. Ela aparece perfeita. Eu a fiz parecer, na foto, um pouco Patti Smith, e ela me disse, “Estou na linha com Patti Smith.” Eu falei, “Oh, pergunte a ela o que ela acha da foto,” e ela me disse que Patti havia gostado. Eu logo pensei que, se Patti gostava, podíamos fazer. Não sabia que eram amigas, pois Patti Smith é uma referência tão grande na moda. Kristen é uma garota descolada, mas é preciso conhecê-la. Ela é muito tímida no começo, sabe.

Todas sonhamos em ser atrizes — todas desejamos ser Nicole Kidman e Angelina Jolie, mas será que elas são mais felizes que nós? Não tenho certeza. É difícil ser uma atriz, pois, quando se é uma, não lhe dão o direito de envelhecer. Na moda, também não é fácil, porém, eu geralmente estou atrás das câmeras, o que deixa tudo mais fácil. Acho que toda beleza precisa de um toque de estranheza — um pequeno erro, ou não é beleza.

Fotos: reprodução CR Fashion Book 6a. edição

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